Será que as ações de advocacy dão resultados ou só mais trabalho? De que forma organizações podem se beneficiar de ações de advocacy, para além da mudança de ecossistema, em políticas públicas e melhoria para o público-alvo? E afinal das contas, o que é esse tal de advocacy!? Vem com a gente nesse artigo para descobrir as respostas para estas e outras perguntas!

A gente sabe que o ano de 2020 foi uma tormenta na vida de muitas pessoas e organizações e 2021 não parece que será muito diferente. Foi neste cenário que o Empreender 360 convidou outras organizações para atuar nas ações de advocacy conjuntamente. Afinal, unir forças faz parte da nossa missão. 

Foi por meio deste grupo (Aliança EmpreendedoraFirgun e Integração - Escritório de Inovação e Gestão em Projetos)que desenvolvemos ações de conscientização sobre inclusão empreendedora e influência do poder público, principalmente a nível municipal durante as eleições de 2020. 

Feita esta introdução, conversamos com uma das organizações, as fundadoras da IntegraçãoNeusa Lima e Sara Santos, que fizeram as articulações com os candidatos e atores governamentais que demonstraram interesse (ou não!) na Inclusão empreendedoraElas atuaram principalmente na Bahia (Feira de Santana, São Sebastião Passé, Seabra, Catu), mas conversaram também com pessoas na Paraíba e Goiás. Elas nos contam a sua experiência com as ações que implementamos juntos e seus aprendizados em relação ao advocacy. 

Olha só o que elas nos contaram: 

“...com advocacy, a gente percebeu que na verdade a gente pode sim se envolver com a questão política...” 

A gente entrou em contato com essas pessoas [influentes no meio político da cidade e região] e a gente foi muito bem recebida, muitos se interessaram. A gente teve um diálogo bem bacana com pessoal mais próximo que a gente já tinha interação. São pessoas do nosso convívio, da nossa rede já, mas a gente não tinha acionado ainda na questão política. Então a gente nunca tinha ainda enveredado por aí, eram outros trabalhos voltados ao empreendedorismo a educação a volta da consultoria mais nada focado nessa temática em si, com esse público específico... Na verdade, a gente sempre teve esse cuidado de ter essa neutralidade para até não confundir com levantar Bandeira... Porém, com advocacy, a gente percebeu que pode sim se envolver com a questão política, sem precisar levantar Bandeira e nem expressar opinião pessoal. 

A maioria não sabe direito o que é realmente empreendedorismo, como eles podem auxiliar o empreendedor sendo um político, um vereador, um prefeito. 

[A conversa sobre a temática] foi um pouco complexa no sentido que uma boa parcela não conseguia entender o que era inclusão empreendedora. Tinha muitas pessoas que conheciam e que realmente têm domínio de causa, mas a maioria não sabe direito o que é, como eles podem auxiliar o empreendedor sendo um político, um vereador, um prefeito. Isso é frustrante para a gente.  Alguns tinham no plano de governo que iriam abraçar a causa dos empreendedores, mas não sabiam o que era empreendedorismo.  

A gente percebe que os deputados já têm um pouco mais de domínio. Mas são pessoas que já atuam a alguns anos no poder públicoQuando a gente parte da esfera Municipal, mesmo a gente tendo contato direto em três ou quatro Estados, a gente percebeu essa dificuldade, pela questão que muitos desses políticos são pessoas muito simples, baixa escolaridade alguns deles. Muito semianalfabeto, analfabetos funcionais, então a gente vê que infelizmente essa é realidade de muitos vereadores de vários municípios.  

“...a gente percebeu que eles se interessaram... alguns até abriram um diálogo para a gente conversar posteriormente a 2021, pensar em novas articulações. 

A gente percebeu que eles se interessaram, achavam interessante a carta compromisso. Por exemplo, alguns até abriram um diálogo para a gente conversar posteriormente 2021, pensar em novas articulações. Tem um pré-candidato a deputado federal que já está com a gente e está pensando na atuação com o empreendedorismojá estamos até participando de reuniões com ele para poder começar a realmente fazer uma campanha política, dois anos antes do previsto. Começar agora, porque esse realmente quer ganhar. Está fazendo isso porque a gente está acompanhando de perto e realmente está surtindo efeito. Ele mora aqui na região de Feira [de Santana – BA], porém ele deve sair como candidato a deputado federal.  

A gente também teve o contato indireto via e-mail e grupos de alguns partidos políticos. E este contato já não foi legal. Entramos em contato com todos os diretórios nacionais ou estaduais que tinham e-mail registrado no TSE e tinha contato no site dos partidos. E a resposta foi basicamente um por cento, e a gente manteve um contato constante com eles. Mas vimos que não era algo que era interessante para eles naquele momento. Se fosse um mês antes eu acho que a gente teria conseguido atingir maior número de pessoas e colocar a carta compromisso de forma mais concreta nos planos de governo.  

Quando perguntadas sobre se tiveram algum ganho na participação das ações de advocacy planejadas, olha o que elas disseram! 

Foi a partir desse trabalho [de advocacy] que começaram a intensificar os contatos, e a gente tem parceria para realizar ações em alguns municípios. 

Agora mesmo estamos com propostas de trabalho para 2021 e que vieram a partir destas ações de advocacy. Foi a partir desse trabalho que começaram a intensificar os contatos, e a gente tem parceria para realizar ações em alguns municípios. Nesse período de dezembro [2020] estamos articulando para a partir de fevereiro e março [2021], ocorrendo tudo bem, já estar desenvolvendo algumas ações, alguns projetos e levando também a carta compromisso. A gente quer também levar as cartas para esses, que não estão na área específica de empreendedorismo. Eles têm o tema de empreendedorismo, com educação empreendedora, mas não inclusão empreendedora.  A gente já está pensando em levar a carta, porque agora a gente tem contato direto com prefeito, secretário, subsecretário, chefe de gabinete, de umas 6 – 7 cidades que a gente está viajando para poder dialogar. 

Outra oportunidade que já temos com parceiro nosso, vai ser poder ampliar um projeto que já temos. 

Outra oportunidade que já temos com parceiro nossovai ser poder ampliar um projeto que já temos. Então já estamos na costura de um projeto e a perspectiva que depois do advocacy, na verdade principalmente com os webinares, a gente amplie um projeto para outra cidade.  

Em uma reunião ontem com o possível cliente nosso da formação, ele já quer implantar na rede Municipal o ensino de empreendedorismo, no Ensino Fundamental, e no EJA, também para fazer a formação para os professores, pois eles trabalharam educação empreendedora na rede. Aqui a rede Estadual já incluiu o tema também. Na rede municipal essa questão da educação empreendedora é bem fraca e é um dos pontos da Carta Compromisso. Porque realmente a gente  que quando chega no terceiro ano, no EJA, eles já estão empreendendo. A minha aluna, ela era do terceiro ano e a menina já fazia slime para vender na escola desde cedo e vendia horrores de slime na escola. Então a educação empreendedora precisa vir na escola desde cedo. 

Desmistificou um pouco a questão política... a gente deve estar mais presente e atuante neste diálogo com eles. 

Foi muito interessante para a gente analisar o perfil dos governantes brasileiros, principalmente os municipais, vereadores. Será que realmente eles tão engajado, será que realmente ele sabe qual o papel dele no município? Se eles têm conhecimento da causa realmente? Se eles têm conhecimento do perfil da cidade que eles vão governar? Para mim mesma foi um crescimento muito importante. Porque a gente tem que parar de pensar no que seria melhor para mim como pessoa e o que vai ser melhor para minha comunidade para minha cidade, para o meu Município, para o meu Estado.  

Também desmistificou um pouco a questão política, porque a gente meio que tem receio de entrar no meio políticoE com advocacy, com todo esse processo de construção, com esse diálogo direto e indireto a gente percebeu que, pelo contrário, a gente deve estar mais presente e atuante neste diálogo com eles. Porque realmente eles não sabem, eles não têm a bola de cristal e não adivinham o que a gente precisa. E nenhum político no mundo consegue ter noção de todas as realidades.  

Se não é a gente para levar, para falar, para dialogar com eles, eles não vão adivinhar. E cobrar também...” 

Numa cidade como a nossa mesmo – tem mais de 700 mil habitantes – a gente tem todos os tipos de classes sociais e locais de moradia que pode imaginar. Então é uma discrepância enorme de realidade e não tem como [um político] saber disso tudo. Se não é a gente para levar, para falar, para dialogar com eles, eles não vão adivinhar. E cobrar também. A gente está cobrando e exercendo nosso dever como cidadão. 

A gente entende que um meio deles conhecerem essas comunidades, é através das associações da sociedade civil. Todo bairro tem. Então a gente precisa engajar mais essas instituições para que elas levem a causa até os políticos, até os governantes. Elas têm como chegar aos CRAS, essas organizações têm como chegar ao público que realmente necessita nessas comunidades. E têm também como ter acesso a essas pessoas que foram eleitas, para levar as propostas, as necessidades de cada comunidade de cada canto da cidade. E quem mais do que uma OS, um líder comunitário, para estar articulando isso com a comunidade e estar articulando diretamente com esse político.  

A gente tem uma visibilidade muito maior como empresa... muitas instituições e pessoas deram mais credibilidade para o nosso trabalho. “ 

A gente já tem 6 anos atuando e só junto com a Aliança foram mais de três mil empreendedores impactadosA gente não tem visibilidade dentro da nossa região como a gente tem fora. Em Catu, Sebastião do Passé, Pé de Serra. A gente tem uma visibilidade muito maior como empresa. Até aí fora quando fala em São Paulo, Curitiba a região que a gente já atuou com vocês, a gente tem muito mais visibilidade do que nossa própria região. Então com o advocacy, a gente deu uma encorpada nisso, muitas instituições e pessoas deram mais credibilidade para o nosso trabalho, a gente teve feedback de pessoas que a gente nem imaginaria que ia ter. Eles paravam a gente na rua e falavam “olha, eu vi a empresa de vocês desenvolvendo o trabalho...” e a gente sinceramente nem sabia, a gente nem tinha entrado em contato com elas.  

“...nunca tinha pensado na assessoria para o setor público que está bem aberto e é uma área que a gente está começando agora a atuar já para 2021. 

Agora a gente já pensa em atuar em mais um ramo que é na assessoria para setor público. A gente nunca tinha pensado nessa questão assessoria. A gente presta assessoria para empresa privada e para OSC. Mas nunca tinha pensado na assessoria para o setor público que está bem aberto e é uma área que a gente está começando agora a atuar já para 2021. 

As OSCs, as instituições também têm que sair da caixinha e começar a desbravar e se aventurar por outros seguimentos, outros ramos, como é o advocacy, que elaainda não conhecem e que podem trazer resultados positivos, muito positivos, tanto para instituição como para toda uma comunidade. É algo que vai muito além do meu umbigo da minha instituição, vai para uma comunidade que talvez eu nem tenho contato, que eu nem esteja perto, mas isso vai beneficiar muitas pessoas.  

“...essas organizações têm que estar conscientizando os eleitores, os beneficiários, que eles também têm um papel importante na questão da política 

As vezes as instituições, as pessoas, com certeza elas têm um grande papel na comunidade que elas atuam. E se cada uma fizer a sua parte, se organizar para inclusive conscientizar as pessoas que elas apoiam nas comunidades de que elas têm o poder de mudar, se elas tiverem esse compromisso de dizer “na minha comunidade eu vou fazer diferença”? Porque todas as organizações têm contato com vereadores e prefeitos. Então essas organizações têm que estar conscientizando os eleitores, os beneficiários, que eles também têm um papel importante na questão da política, de conhecer melhor. Não é só de quatro em quatro anos eles apresentaram candidatos a esse povo em troca do voto, por algo momentâneo, que não levou muito impacto para aquela comunidade. 

Com este depoimento, entendemos que organizações menores geralmente possuem menos recursos e pessoas envolvidas com ações de diversas frentesDiferente de organizações com mais estrutura, que conseguem ter recursos e pessoas dedicadas exclusivamente para o advocacy. 

Organizações que trabalham na ponta, diretamente com o público beneficiado, conhecem as necessidades delesSempre que possível estas organizações devem levar seus pontos de vista, de forma estruturada e embasada, para entidades públicas municipaisestaduais ou federaispara não somente ampliar o olhar dos governantes, mas também fortalecer sua marca, aumentando sua credibilidade e abrindo portas. 

Assim, trabalhar em parceria com outras organizações para formar, pensar e atuar com advocacy, contribui para o desenvolvimento da organização, do local em que atua e, consequentemente, do ecossistema.